fotografia: "ninfa" © Gaspar Pedro

Parece que só comigo acontece


Enquanto durmo, o mundo gira. Cigarras cantam, formigas labutam, baratas dançam iê-iê-iê com seus baratos. E baratas, têm sete saias: uma fantasia por dia.

Enquanto cochilo, a vida grita. Sapos que não lavam os pés, coaxam aos pés das rãs. Pernilongos tocam um hino ao violino; o grilo cricrila e alguém, que eles azucrinam, estrila cobras e lagartos.

Enquanto ressono, cachorros ladram, mas não mordem; gatos miam no telhado alheio; o rei do galinheiro anuncia um novo dia; algum humano, em algum canto, canta de galo.

Enquanto no meu casulo, as aves mudam de rumo; as uvas (desdenhadas) maduram nos cachos; um pato, que se achava feio, vislumbra um cisne no espelho do lago.

As folhas foram, enquanto eu, em coma. Inverno finda, enquanto hiberno. Primavera desliza leveza na passarela e não desfila em meus gramados. Ainda.

Parece parlenda, parece fábula, parece conto-da-carochinha, parece mito.

Enquanto isso, o sonho [bicho-da-sede], amor tece.


Valéria Tarelho




 Escrito por Val às 18h51
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