Ternura


M
udou de endereço. Agora usa outro nome e com um rosto novo se mostra. Até a fala, não é mais aquela (gélida) de outrora. E o gelo de uma era inteira, cedeu ao cálido beijo. O frio do esquecimento, deu lugar a um tépido leito de rio. E hoje rio da mesmice de mim mesma. Acho graça daquela (in)existência isenta de um reflexo; de uma face em que eu me visse refletida.


Mudou de pessoa. ele e eu somos nós. Somos plurais, nada singulares. Mudou o modo. modificou: age e interage. Troca comigo. Toca e permite que eu toque. Permuta sentimento. Doa-se e dou-me a ele, sem dor.


Não há rastro de aspereza em meus lábios. Não há desencanto, desencontros, hiatos. Não há tempo para as pedras do caminho, e, perda de tempo, é uma lembrança remota. Não há a rudeza do asfalto, nada me falta - a não ser o chão, quando o sinto perto. E dentro. No devido lugar: o canteiro da alma. É lá que brotam flores outonais.


No ponto de encontro em que me acho, há um ratro de felicidade que me aponta os novos rumos do que reconheço em outros traços. Há sinais de amor-identidade. O amor de sempre, contudo, mais resistente. O amor presente, em embalagem mais condizente ao conteúdo frágil.

 

Valéria Tarelho

 



 Escrito por Val às 12h11
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