pet shop mundo homem

 
 
...não que eu tente me enganar, arrumando desculpas para o sumiço dele. até pensei numa possível mea-culpa (algo que fiz e nem sei). já cogitei acidente, morte súbita [inconscientemente o matei mil vezes com golpes de misericórdia]. quem sabe perdeu a memória, virou indigente. ou então, todos os meios de comunicação deram pane: internet, celular, correio, telefone, o raio que o parta: tilti geral e ele não sabe fazer sinais de fumaça. nem eu, primitivo demais e eu sou high tech [e chique]. pensei em todas as possibilidades: iml, prisão, pronto-socorro, uti, vaticano, big brother, manicômio...
 
não que eu tente me iludir, achando que ele não vem porque algo (grave) o impede (greve, gripe, guerra, gravidez ¿?) . 
 
tento é me convencer que não houve engano. amei um homem, não um cachorro: pit-boy sem pedigree. cão sem dono.
 
 
valéria tarelho
 
 
n.r.: a autora pede aos  auaus que não se ofendam com a comparação. e esclarece que no caso não cabe um pedido de indenização por danos morais. está lá no houaiss:
 
cachorro » (entre as  acepções):
 
 uso: pejorativo.
     diz-se de ou indivíduo indigno, vil, infame ou que tem mau caráter
 
 


 Escrito por Val às 23h23
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 Escrito por Val às 15h41
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fotografia: "ninfa" © Gaspar Pedro

Parece que só comigo acontece


Enquanto durmo, o mundo gira. Cigarras cantam, formigas labutam, baratas dançam iê-iê-iê com seus baratos. E baratas, têm sete saias: uma fantasia por dia.

Enquanto cochilo, a vida grita. Sapos que não lavam os pés, coaxam aos pés das rãs. Pernilongos tocam um hino ao violino; o grilo cricrila e alguém, que eles azucrinam, estrila cobras e lagartos.

Enquanto ressono, cachorros ladram, mas não mordem; gatos miam no telhado alheio; o rei do galinheiro anuncia um novo dia; algum humano, em algum canto, canta de galo.

Enquanto no meu casulo, as aves mudam de rumo; as uvas (desdenhadas) maduram nos cachos; um pato, que se achava feio, vislumbra um cisne no espelho do lago.

As folhas foram, enquanto eu, em coma. Inverno finda, enquanto hiberno. Primavera desliza leveza na passarela e não desfila em meus gramados. Ainda.

Parece parlenda, parece fábula, parece conto-da-carochinha, parece mito.

Enquanto isso, o sonho [bicho-da-sede], amor tece.


Valéria Tarelho




 Escrito por Val às 18h51
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Ternura


M
udou de endereço. Agora usa outro nome e com um rosto novo se mostra. Até a fala, não é mais aquela (gélida) de outrora. E o gelo de uma era inteira, cedeu ao cálido beijo. O frio do esquecimento, deu lugar a um tépido leito de rio. E hoje rio da mesmice de mim mesma. Acho graça daquela (in)existência isenta de um reflexo; de uma face em que eu me visse refletida.


Mudou de pessoa. ele e eu somos nós. Somos plurais, nada singulares. Mudou o modo. modificou: age e interage. Troca comigo. Toca e permite que eu toque. Permuta sentimento. Doa-se e dou-me a ele, sem dor.


Não há rastro de aspereza em meus lábios. Não há desencanto, desencontros, hiatos. Não há tempo para as pedras do caminho, e, perda de tempo, é uma lembrança remota. Não há a rudeza do asfalto, nada me falta - a não ser o chão, quando o sinto perto. E dentro. No devido lugar: o canteiro da alma. É lá que brotam flores outonais.


No ponto de encontro em que me acho, há um ratro de felicidade que me aponta os novos rumos do que reconheço em outros traços. Há sinais de amor-identidade. O amor de sempre, contudo, mais resistente. O amor presente, em embalagem mais condizente ao conteúdo frágil.

 

Valéria Tarelho

 



 Escrito por Val às 12h11
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apenas um tEXto

ele mora longe, tem uma ex que é uma mala e outras tantas, tatuadas nas histórias que o sofá da sala, sensato, cala.

na calada da noite, penso nele, distante: quem sabe, tendo um  tête-à-tête com meus fantasmas.

assim como eu, aqui, so far, face a face com a ansiedade; assombrada pelas visagens do seu passado: vultosas, presentes, perenes e que, volta e meia, volitam meu imaginário (fértil, doentio, patético? maybe... I really don't know).

pode ser bobagem todo esse meu alarde; pode ser alarme falso; pode ser tudo balela: lilians, leilas, gigis, carlas, carlas, carlas, mil vezes carlas... 

todas, almas peladas. ex-queletos. ex-pectros. 

não tenho medo, ele sabe. na verdade, o que mais me assusta, é o monstro da saudade que sinto, que cresce a olhos vistos; são os bichos que,  à distância, alimento, com culpa.

confesso: dou, também, copos d'água,  às coitadas que já morreram: há décadas, há meses,  à míngua. mortas-vivas, que ele esqueceu de encerrar. e daqui, vou tentar enterrar essa ex-cória.

ele mora longe. e, nem de longe, "mora", que um amor nasceu há pouco: tem fome, chora, quer colo. requer luz ambiente e a voz sussurrante de um homem e uma mulher,  que lhe conte uma estória diferente, a cada noite: sem bruxas, cucas, anacondas. sem zumbis, vampiras, múmias. sem ex-finges.

um conto de fadas, de fédon,  de fodas. não necessariamente nessa ordem.  

 



 Escrito por Val às 13h27
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Ao consumidor de meu amor®

 

Fui notificada de que meu amor® está infringindo a lei em vigor. A embalagem não traz prazo de validade. Ingredientes, idem, mas você sabe: meu amor®, é amor na forma bruta, sem aditivos, conservantes, sem maquiagem (corante, só o rubor da face - efeito desse amor que me consome). E não é propaganda enganosa esse amor genuíno e não perecível.

Meu amor® já teve sua qualidade testada - e aprovada.  Está lá, visível e inviolável, a etiqueta "verificado", que não deixa margem para dúvida. Portanto, o uso de meu amor® não coloca em risco sua saúde e segurança.

Meu amor®íntegro, de peso e medida exatos. Ainda assim, foi confiscado do mercado. Meu amor®, fora de circulação, até que se corrija a irregularidade na embalagem: constar, no rótulo, data e componentes. 

Talvez volte a circular, assim que eu souber - e puder informar - quando  ele, meu amor®, expira. E do que ele, meu amor®, é constituído.
 
Até lá, amado consumidor, se imprescindível, faça uso de "meu amor¿" falsificado. Fabricado em larga escala por aí. Encontrado em qualquer beco. Amor, de origem duvidosa. Importe "I love you""Ti amo""Je t'aime", "Ich liebe dich"...se não se importa com um autêntico Eu amo você
 
Pátrio. Puro. Perene Com garantia de qualidade, o meu amor®, ora estocado no peito.
 
Meu amor®, fora do padrão atual. Meu amor®, antiquado.
 
Irregular, segundo o comunicado.
 
 
Valéria Tarelho


 Escrito por Val às 14h43
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A arte de chorar-te

Ontem chorei. Chorei, como choro quase sempre. Nem sempre, um choro molhado. Ontem chorei um choro estrangulado, ressequido, mais sentido que muito pranto derramado.

Ninguém notou que eu chorava convulsivamente. Não houve testemunha do meu quase-afogamento na secura.

Lágrimas aliviam, lavam a alma. Lágrimas são solventes, dissolvem mágoas. Lágrimas são coadjuvantes, no processo de abrandar a dor. E lágrimas são aparentes, rolam soltas, irrefreáveis, pela face. Dificilmente representam um monólogo. Os olhos incham, há vermelhidão. Lágrimas são, também, protagonistas. Meu choro seco, não, mas é melhor artista.

Ontem chorei a seco. Tratei amargura como roupa fina. Tecido que requer cuidado redobrado. Sequei minha tristeza à sombra de mim mesma. Depois, a passei a vapor. Temperatura amena, como prescreve a etiqueta.

Ninguém notou que retirei as nódoas e alisei os vincos de meu coração mendigo. Assim como ninguém percebe o estado de penúria em que se encontra: esmolando, mas pedindo pouco. O suficiente para sobreviver.

Ontem chorei. Atravessei o dia, invadi a noite, transcorri madrugada sem conter o choro. Já era hoje, eu chorava. Ainda choro.

Ninguém notou. Nem a fronha de meu travesseiro – cúmplice de meus pensamentos, minha melhor amiga -, perfumada e enxuta, permaneceu, indiferente ao choro que só eu sei, chorei.

No travesseiro ao lado, molhado de suor, marcas de uma noite bem dormida. Tranqüila e úmida, notei.


Valéria Tarelho



 Escrito por Val às 07h48
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 Amém

 

...O fato é que ele era um charme. Charme é pouco, já sentira o poder que aquele encanto de homem exercia sobre ela, mas não assim frente a frente. Já ouvira aquela voz de travesseiro (que deixava Dick Farney no chinelo) ao telefone, recebera mails sedutores, cantadas sutis: sexo implícito nas entrelinhas, nada promíscuo, mas que prometia. Aquele homem convencia a mais fiel, casta, enrustida, determinada, das mulheres. Até as não muito chegadas.

Não bastasse a boa prosa, ele era poeta. Charme, realmente, é muito pouco para quem faz amor com as letras - o que dirá com uma mulher, pensava ela. Ficava úmida a cada linha. Chegava perto do céu, próxima do mais frenético dos orgasmos (solitários) ao final da leitura. Imaginava seus dedos no teclado, deitando palavras como quem cobre de leveza um corpo feminino - o dela, é claro. Teve incontáveis fantasias dionisíacas.

Agora estavam ali, ocupando o mesmo recinto. Ele de costas, em pé, no balcão do bar (que charme – já sendo repetitiva, mas não pensava outra coisa), ela vindo por trás, sem saber bem o que dizer. Foi o mais natural possível, como se encontrasse um velho amigo - meu Deus, ele é tudo e mais um pouco...perdão Pai, mas ele é o próprio deus das minhas futuras preces.

Tremulava por dentro. Mal disfarçava o nervosismo, por fora – será que ele gostou? não estou loira demais? loira de menos? e estes óculos? bom, ele também usa óculos, mas nele ficam um charme, ainda mais com esse par de olhos azuis por trás das lentes. acho que devia ter usado aquela saia que realça meu bumbum. nunca me odiei tanto por ficar adiando implantar silicone! o que será que ele está pensando? por que fui colocar esse corpete com tantos colchetes? agora é tarde...

Beberam no bar do shopping. Local mais casual, impossível. Ambos, de uma elegância frugal. Falaram um pouco de si, mas não dos dois - esse charme todo tem dona, vá com calma. também ostento (e não disfarço) uma aliança na mão esquerda, mas quer saber: que charme! danem-se os vínculos, os elos, os círculos: eu quero é mais as vias tortas, espirais, ziguezagues...de quebra, me perder em umas quebradas.

Era um encontro no escuro, de claro só havia um detalhe: se a atração fosse mútua, iriam, do bar, a um motel saciar a fome de quase seis meses de flerte via Internet. No bar, conversa pra lá, chope pra cá (ele ia de uísque – importado, por favor), chope derramado na mesa, mais chope, cigarro, cigarro, cigarro (coincidência, Charm é a marca dela), outro uísque, outro cigarro, até que ele, com todo seu charme, menciona saírem do bar. Ela queria. Ela temia. Ela tremia toda. Ele era mais que um charme, era o deus de sua devoção, agora ela sabia. Fez charme, reprimindo a vontade de se entregar ali mesmo, naquele instante, naquela mesa, diante de todos. Saíram do bar, do shopping, de órbita.

O fato - chato, porém - é que além de ser um charme, ela o endeusava tanto que o pecado banal da traição foi agravado. Na cabeça dela, além do marido e da esposa, havia deus, nu, na cama redonda, refletido na parede e teto forrados de espelhos. Não saberia transar esse swing! Fossem apenas o marido e a esposa, vá lá, que ficassem assistindo ou aproveitassem também daquela esbórnia. Mas, deus? Ficou um tempo perdida em seus (pre) conceitos, oscilando entre pecado mortal, capital, sacrilégio, heresia. Logo ela, que nem igreja freqüentava, rememorou em segundos toda a catequese. Tesão era o último item de sua check list – porque não bebi uns tragos daquele uísque?

Foi nessa hora que fez um pacto com o capeta (não um diabinho qualquer, o Big Boss mesmo, bambambam do inferno) e lhe entregou sua alma.
Desde então, o corpo arde nas mãos de deus (que se não é o O(m)ni-poderoso, criador do Universo, é um ser a sua imagem e semelhança - um deus-homem, criador de versos): presente, ciente, especialmente potente.

Um puta charme!



Valéria Tarelho



 Escrito por Val às 14h53
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Para ti,
                             
deep blue


"A localização de Parati é privilegiada e muito bem protegida das intempéries que costumam deixar o mar agitado.
Situada em um dos cantos da Baía de Angra dos Reis, toda a navegação na região é bastante tranqüila,
mesmo nos mares de inverno, por isso Parati é considerada destino certo em qualquer época do ano."
Revista Náutica On-Line




Eu poderia perder a noção do tempo, mergulhada em teus olhos. Assim como perco o conceito de equilíbrio, quando a beira do abismo de tua boca. Ou quando perco os sentidos ao te ver partindo: estado de coma, induzido por tua ausência. Coma vígil, até que, novamente, te veja: corpo presente, olhos que me fogem.

Talvez refugues o meu olhar, para que eu não me jogue de cabeça. E o olho-no-olho que me negas, talvez seja por medida de segurança (minha, ou tua; talvez, nossa). Talvez fujas de um amor que, lá no fundo, pressentes; talvez queiras ocultar alguma culpa por não me amares, ciente que tanto te amo; talvez evites decifrar o que meus olhos dizem - eu e essas minhas verdades, que saltam aos olhos. Talvez até te importes comigo, enquanto eu não dou a mínima para o perigo. Daria a vida - eu e minhas hipérboles: "eu sou mesmo exagerada, adoro um amor inventado..." -, para ver-me refletida: da superfície (cristalina?) de teus olhos ao tom azul mais recôndito. Já morri um pouco, abracei muitas mortes no teu corpo, mas nos olhos almejo o meu último suspiro. Desejo uma morte azul, não cor-da-pele. Azul, cor do céu sem nuvens - sol a pino -; azul, cor do mar profundo, em dia claro. Azul límpido. Desejo morte súbita: fulminada pela descarga de teus raios de luz (azuis, óbvio), não a morte lenta dos orgasmos acromáticos.

Ainda que fosse para fenecer de desamor, só em teus olhos eu encontraria paz. Pois, somente no abissal de tua iris, está sedimentado o significado de tudo. No fundo de teus olhos, há resíduos dos motivos por estarmos juntos. Lá, reside a cota de razão que te cabe e desconheço. O meu quinhão, está à tona. E segue - a olhos vistos - o curso da correnteza que deságua em ti. Tu, que não permites que eu desça mais profundo. Sequer admites que eu penetre - eu e minha "síndrome de Star Trek": estar onde nenhum outro ser humano jamais esteve -, talvez, para não decepcionar-me ao encontrar destroços das que já naufragaram ao tentar semelhante proeza. Não sou a primeira, tampouco a última. Não sou a única. E não te conquistei, enquanto algumas deixaram em ti suas marcas, sem muito esforço (por minha perseverança, mereço destaque no Guiness Book - até que outra bata meu recorde).

Talvez para poupar-me do mesmo fim, talvez por prazer apenas, talvez porque gostes (um pouco) de mim, te faças navegável aos meus cruzeiros turísticos por teu corpo - porto que já visitei muitas vezes. Mergulhar no teu olhar, mar aberto à tua alma, jamais: é privilégio que não me concedes.

Aliada a mim nessa conquista, tenho a minha escrita: ilógica, onírica, transgressora... Através dela, vim até aqui, diante de teus olhos, infringindo teus (des)mandamentos. Vim, sem treinamento algum, sem equipamento adequado, decidida a me lançar em tuas águas. Vim correr riscos, aventurar-me, com o firme propósito de criar raízes, ancorar, fazer parte de tua paisagem marinha, ser vizinha de anêmonas, algas, corais, restos mortais... Vim disposta a abdicar da condição humana, para ficar mais próxima do ser indízivel que tu és. Vim ser estrela-do-teu-mar, sereia, Iemanjá. E vim, para ficar. Sem pedir-te licença, faço das tuas profundezas, minha morada.

No meu texto, posso perder não só a noção do tempo, o equilíbrio, os sentidos: posso dar meu último suspiro, mergulhando nos teus olhos. Sou eu quem dito as regras e nada é proibido. Não há lacunas. Inexiste exceção. Dupla interpretação, não cabe. Náufraga da vida, minha ousada escrita me salva, possibilitando-me esta morte "blue". A doce morte, na cor que em outro contexto, me é negada.

Talvez não notes, mas sou uma parte tua agora. Mesclando azul e amarelo, decoro teu mar de dentro. Habito teu (des)conforto. Em ti, me encontro. Por ti, escrevo. Para ti, entrego amor eterno. Amor que componho em verso e prosa. Amor, melhor parte da minha história. Amor que é verde: vicejante em qualquer época do ano, até mesmo no inverno. Mesmo que não queiras, ele brota, regenera, renasce das cinzas, triunfa nas intempéries. E é teu, infinitamente teu, para quando quiseres.

Mesmo não permitindo, vim ao meu destino certo. Vi teus segredos. Venci meus medos: aqueles, um pouco teus. Talvez.


Valéria Tarelho



 Escrito por Val às 01h29
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p(r)o(f)ETa

Apaixonei-me por um tipo estranho. À primeira vista, parece humano, mas, embora a similitude, existem grandes diferenças. Imperceptíveis, visíveis, apenas, a olhos de Lua grávida, como os meus.

A cabeça da criatura, flutua a um palmo do tronco. No alto, onde seriam os cabelos, paira uma névoa de interrogações e exclamações. Reticências e et ceteras, ocasionalmente, quando resolve mudar o estilo. No lado direito da face, há uma lágrima perene - de sangue. No esquerdo, um sorriso a meia-boca, externiza uma gama de sentimentos: da felicidade plena, ao riso contrafeito. Os pés de meu amado parecem não tocar o chão, dando-lhe a impressão de levitar. Tem mãos delicadas - de pluma - e asas nas pontas dos dedos - em todos os três. Possui seis sentidos. O sexto, é complemento dos demais; assim: enxerga, ouve, toca, sente, pressente...além de nossa capacidade, de pobres mortais. Sua alma geme plangente. Nessa espécie diferente, mesmo os machos, geram filhos. O período de gestação é indefinido. Pode ser longo, ou breve. Pode ser um parto doloroso, ou indolor. E sempre natural, mesmo quando induzido, ou a fórceps. Também podem ser multíparos.

Tipo esquisito! Teândrico. Ou de algum outro planeta. Ou ambos. O certo é que, por ele, caí de encantos. Cupido, certeiro - e arteiro -, atirou-me a seta de ponta dourada. Acertou-me em cheio. Apaixonada - diria até enfeitiçada -, vejo beleza na estranheza (que só a meus olhos aluados, ele expõe).

Não sei se obra do acaso, ou, se escrito nas estrelas, aquele ser fez de mim sua eleita. A predileta. E revelou-me seu segredo numa sexta-feira de Lua plena: o lugar de onde veio chama-se Poesia. Habitado por poetas - seres tão estranhos quanto.

Valéria Tarelho


 Escrito por Val às 10h54
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Amor e Sexo

A letra de “Amor e Sexo”, cantada por Rita Lee , foi escrita a partir de uma crônica de Arnaldo Jabor. A autoria da letra é de Rita, Roberto Carvalho e Jabor, um “ménage musical à trois” (como ela definiu) perfeito! Adoro a música e não canso de ouvi-la. Aliás, não canso de Rita. Só não consigo separar as coisas dentro de mim. Sou do tipo: sexo, só com amor. Num ritmo só, o da batida de meu coração.

Não me refiro àquele amor idealizado, único, para todo o sempre, até que a morte os separe. Falo de amor, sentimento irrestrito, livre, sem a carga monogâmica imposta pela sociedade, igreja, etc... Amor vem de nós, isso é certo. E só de nós. Não devemos procurar amor no outro. O que vale é amar e entregar-se ao amor.

Amor é singular? Não creio. Acredito que muitas vezes refreamos o sentimento, o inibimos, mas lá no fundo sabemos que, não fosse nossa cultura, sentimento de culpa, o amor teria outros pares, ímpares, multiplicar-se-ia e seria repartido. Amor e sexo, uma prosa-poética. Equação matemática. Sexo, isolado, é má temática. Conjunto vazio. Conheço pessoas que transam por transar, eu não consigo. Talvez seja um defeito genético meu. E minha fórmula não seja a de solução mais prática. Mas o resultado é exato, sem sobras.

Mesmo um amante, teria que ser, antes de tudo, meu amado. Poderia ser um amor de momento, mas o sexo teria que vir de dentro do peito, um livro aberto, onde leio o sexo como complemento não um ato apartado, sem nexo (senão gozo pelo gozo). Sou capaz de amar pessoas que não me amam e fazer sexo com elas. Mas eu tenho que amar, senão não rola. Quadrada, eu? Nem tanto, pois aceito triângulos. Qualquer polígono amoroso.

Valéria Tarelho



 Escrito por Val às 17h54
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Cordial idade
 
Muito se fala em desarmamento civil. Discute-se os prós, contras e há os em cima do muro (atirando para qualquer lado).
Em contrapartida, pouco se pratica de civilidade. Especialmente aqui, Terra Brasilis, do samba, suor (se não suar, melhor), caipirinha: o país das maravilhas (Ilha da Fantasia? também, mas deixa Tatoo para outro texto).
Alice, se caísse neste buraco, seria atropelada por coelhos com pressa de se dar bem, passando por cima de tudo e todos. Informação? Só se for errada ou de um mau-humor que dá dó. De chapeleiros malucos, aqui está assim ó! Rainhas loucas e reis também, porque aqui, neste conto do vigário, vale tudo.
"Quem sou eu? Ah! esta é a grande confusão". Pobre Alice, o caos é mais embaixo e se instaura no berço. Logo ali, entre o papai e a mamãe estressados. Bem no quarto ao lado. Desconfie do sorriso do gato: chore fora de hora, faça manha para ver se não lhe cortam a cabeça, pequena Alice. E cresça, aprendendo a defender-se a tapas e gritos. É, parece que vence aquele que derrubar o oponente no berro (urro e arma). Não foi assim que te ensinaram através do espelho?
Tudo isso é floreio, só para que você leia e identifique seu papel nesse manicômio urbano que vivemos.
Uma atitude impensada, ainda que armada de palavras, irá gerar violência. Causa e efeito, é assim que funciona. Desrespeito, a famosa Lei de Gerson, furar fila, infrações de trânsito...incontáveis exemplos, alguns pequeninos (quem não comete?), verdadeiros exterminadores do futuro. O nosso: meu, seu, do vizinho, daquele cara que não tem nada com o assunto e acaba pagando o pato, até dos terminatorzinhos que estão sendo gerados neste exato momento. E de Alice, que dormiu na relva e descobriu um mundo novo. Sonho?
Evite dar armas de brinquedo a seu filho. Dê livros. Aventuras De Alice No País das Maravilhas (Lewis Carroll), por exemplo. E ensine-o, desde cedo, através de seus exemplos, as palavras-bandeira-branca-que-abrem-passagem-erigem-trincheiras-detonam-o-inimigo (assim, tudo juntinho para fixar melhor): obrigada, com licença, desculpe, não há de quê
Por favor.
 
Valéria Tarelho


 Escrito por Val às 13h31
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Big Broadway Brazil 4

Quando estreou o BBB4, pude jurar que já havia visto o "espetáculo". Com outro cenário, outras caras (e bocas), personagens similares: "marombeiros", a mãe gata, o negro, a negra, a loira (burra? tá! burra sou eu!), afortunados e desafortunados. Ilustres desconhecidos (?). Substituindo o goianim/mineirim da versão três, tem apenas o mineirim para garantir o pão (de queijo) deles de cada dia (plim, plim!). E para aqueles que acreditam em papai noel, coelhinho da páscoa, duendes, lisura de emissora e otras cositas mas, a participante Salmonella* (ooops!) - aquela, que tem voz de patalinha (não consegui distingüir a ave) -, dizem as más línguas, é amiga do Boninho. Mas não pára por aí, no "elenco", temos, também, Marmela, amiga íntima da mulher do... Bueno, tem cheiro de marmelada cascão ou não?

Líder; liderados; armações (ilimitadas); confessionário; lágrimas de crocodilo; alfinetadas, com certeza; sexo, mui provável; rock and roll, yes, se estiverem na ilha redonda. Realidade duvidosa. Fantástico, esse show da vida! Nos fornece todos os ingredientes, sem termos que competir para garantir nossa quota diária de falta do que fazer.

Love´s in the air, na TV e 24 horas pela Internet. Nova versão dos mesmos fatos, um prato cheio para s, voyeurs do circo da vida. Pão (no caso, uma casquinha) e circo: funciona há séculos para entreter a galera e desviar a atenção de assuntos mais sérios. E dá Ibope. Como dá! (Tarciana já não deu, se meu déjà vu não me engana, no BBB 2? Vai que rola outra vez...).

Pois é, o buraco da fechadura está lá, de novo, a disposição de todos. Olheiros do Brasil, uní-vos! Tomem seus postos diante da TV, reunam toda a família e dêem só uma espiadinha. Again.

Ou mudem de bial, digo, canal.

Valéria Tarelho 

* Salmonella - apelido graciosamente atribuído à modelo Antonella, por Ricardo Feltrin - Ooops

 http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ooops



 Escrito por Val às 13h14
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